Mãe
Passou-se um mês desde o dia 12 de Abril ....
Um mês desde que a minha irmã nos ligou a dizer: -“Se te quiseres despedir da mãe, vai agora ao hospital de Faro, que o medico acabou de me ligar e disse que a mãe só já terá 2horas de vida”.
Fiquei triste, obviamente, estava a preparar-me para ir trabalhar e levar os meninos á escola, na noite anterior (Segunda-Feira, 11 de Abril) um medico já me tinha ligado a dizer que o estado da minha mãe era muito grave, e que o melhor dos cenários seria ela melhorar para poderem pelo menos operar para reparar os dois furos que tinha no intestino. O medico explicou que ela estava tão fraca que não podiam sequer fazer um tac com contraste, porque o liquido do contraste é bastante toxico e ela estava 200% debilitada.
A minha mãe estava a meses a vomitar, não conseguia sequer beber água. A última vez que a vi foi no carnaval quando passei em Quarteira com os meninos mascarados. Ela ao telefone disse-me logo que não queria se demorar muito no café porque não se sentia bem. Quando chegou ao pé de nós estava com um casacão de inverno aos quadrados e um gorro de lã e dizia que tinha muito frio, e a temperatura desse dia devia de ser uns bons 20 graus. Estava nitidamente cada vez mais doente.
Nas vezes a seguir, sempre que lhe ligava ela estava cada vez mais doente e nem saia da cama, a ultima vez que lhe liguei (Quinta-Feira dia 07 de Abril de 2022) ela nem falou ... disse-me que tinha de desligar e que se continuasse a falar iria vomitar. Fiquei super preocupada, não percebo porque ela não ia ao hospital cuidar dela entretanto liguei ao meu irmão que me confirmou que ela não saía mesmo da cama sequer. No Domingo dia 10 de Abril o companheiro dela ligou me a dizer que ela já quase não se mexia e eu perguntei-lhe mas porque raio não chamavam a ambulancia e ela ia para o hospital para ser tratada. No fim dessa tarde, chamaram a ambulancia, a minha mãe como teimosa que é... recusou-se a ir e então o companheiro dela assinou um termo de responsabilidade e ela lá foi.
Na manhã em que fomos para o hospital ás 8.30h , fui com um nó gigante na garganta, o meu marido deixou-me la no hospital e foi levar a nossa filha á escola. Fiquei lá sozinha sem saber por onde ir. Há dois meses a trás tinha la estado no mesmo lugar a despedir-me do avô do meu marido, coisa que me atormentou bastante, fez-me lembrar bastante da minha avó que tinha falecido á 17 anos. Tinha sido a ultima morte na familia que tinha acompanhado. Mas nessa manhã era a minha própria MÃE.
Andei um pouco atordoada pelo exterior do hospital, estava um barulho ensurdecedor de um helicoptero a preparar-se para levantar voo no cimo de um predio até que vi o meu irmão a chegar de carro. Estacionou e fomos lá dentro fazer o pedido mais dificil da nossa vida: -“Bom dia, viemos despedir-nos da nossa mãe, o Dr. Ligou-nos a pedir que viesemos vê-la uma ultima vez”. Aquelas palavras foram as mais dificeis de sempre!!
Subimos e estavam dois medicos para falar conosco, um deles desfardado (possivelmente tinha estado a tratar da minha mãe toda a noite e estava entretanto a sair de serviço), o outro médico espanhol era tão simpático, explicou-nos TUDO TUDO TUDO, ficamos inclusive chocados com descrição do estado critico tão detalhado.
Foi dificil ouvir que a minha mãe tinha o sangue tão fino que qualquer procedimento medico que fizeram geraram hemorragias complicadas de estancar, que o intestino tinha duas perfurações (Não se sabe de quê porque não conseguiram fazer a TAC com contraste, mas poderia ser de um cancro), as fezes sairam por esses furos e espalharam-se pelo corpo e criaram uma sépticemia geral. Por ter ficado tanto tempo sem beber ou comer (Porque lhe dava vomitos (Um dos sintomas de intestino perfurado), os rins estavam a parar e os liquidos corporais entraram nos pulmões causando uma embolia pulmonar.
Foi dificil ouvir que com este estado clinico, não a poderiam obviamente operar ao intestino, e que como consequencia do estado critico geral os restante orgãos estavam a entrar em falecia, o coração estava a minutos de parar.
Depois desta introdução á porta da sala de cuidados intermédios, lá entramos e vimos a nossa mãe com um ar sereno, de olhos fechados, em efeito de morfina. Eu apertei-lhe a mão e falei, mas ela nem respondeu nem se viu alterações na maquina de batimentos cardiacos, por isso ela já não estava lá. Era só o corpo dela.
Eu e o meu irmão começamos obviamente a chorar, aquele cenário é improprio para um filho, eu só dizia: - “Ela está bem , ela está bem, ela já não tem mais dores mano”.
Entretanto voltou o médico simpatico a perguntar se queriamos um padre para a ultima cerimonia e rezar-mos pela minha mãe. Dissemos logo que sim, mas mais uma vez, foi o sentimento de despedida e de que já não a veriamos mais.
Entretanto chegaram as minhas duas irmãs e logo de seguida o padre. Rezamos todos juntos e de mãos dadas, entre lagrimas e abraços ali ficamos. O meu pai chegou de seguida e ficou conosco até ao fim. Conseguiamos ver pela máquina que o coração e a pulsação estavam cada vez mais espaçadas e fracas, e nós lá a olhar para ela e para a maquina quase a parar até que as 15h de 12.04.2022 parou para sempre!
Estas 6 horas no hospital foram dificeis, mas nunca imaginei que o que viria a seguir era mil vezes pior!
Cada um foi para a sua casa num silencio matador, cada um tinha que lidar com o turbilhão da sua cabeça.
Nesse mesmo dia a noite foi criado por uma das minhas irmãs um chat com o titulo “Mãe” onde em nenhum ou quase momento foi para nos apoiar-mos ou partilhar-mos coisas boas. Na verdade um dos meus irmãos mais velhos enviou uma vez uma foto super alegre da nossa mãe com os netinhos (meus sobrinhos) e penso que foi só! Tudo o resto foi um espelho de como a nossa sociedade e governo lida com a morte de alguém. Só contas e burocracias para tratar!
Infelizmente para nós como familia e como únicos responsaveis pelo funeral da minha mãe deparamo-nos com uma montanha russsa de contas para pagar, os nossos unicos assuntos foram simplesmente pagamentos. Isto é uma crueldade para quem está de luto da propria mãe que acaba de falecer com apenas 58 anos. Começamos a fazer contas e a tentar decidir entre todos onde poderiamos cortar. Tudo aquilo era assustador!
Tinha ficado combinado de que uma das minhas irmãs iria a casa da minhaa mãe para escolher a roupa para lhe vestirem, mas á ultima da hora, e por razões obvias ela ligou-me a pedir que fosse com ela, até porque o companheiro da minha mãe era uma pessoa desiquilibrada e agressiva. Cheias de medo e de telefone com o numero da GNR na mão, lá fomos as duas.
Quando lá chegamos ele não estava em casa, e nós tivemos medo de entrar, ele tinha acabado de saber que a minha mãe tinha partido, ele poderia até estar bêbado. Como a porta estava fechada, batemos a porta, ligamos-lhe e nada. Fomos entretanto ao café lá perto e lá estava ele, aparentemente calmo e prestavel para nos ajudar.
Escolhemos a roupa, que sinceramente quase que não me lembro qual foi (Tal o choque do momento) , e queriamos muito ficar com as fotografias de familia, que sabiamos que ela tinha tudo guardado numa mala. Procuramos em todo o quarto, mais de 45 minutos e qual não é o noso espanto que a mala estava direitinha a entrada do quarto, como se tivesse sido la deixada pronta para ser recolhida. Fiquei gelada quando percebi que estava mesmo ali, pronta, como se a nossa mãe soubesse o que se iria passar.
Em casa, os telefonemas não paravam e em momento algum eu consegui falar fosse com quem fosse. Tive de ligar a tios e tias que já não falava a imenso tempo, ter de explicar a situação vezes e vezes sem conta foi desgastante, principalmente porque tinha debaixo do mesmo tecto que eu os meus filhotes pequenos que eu queria a todo o custo poupar-lhes dos ultimos acontecimentos.
Até ao dia do funeral foi um silencio gigantesco até que lá chegou a Segunda-Feira dia 18.04.2022. Fomos deixar os meninos e la fui para o funeral com o meu marido.
Chegamos super cedo, estava tranquila , mas assim que começam a chegar os familiares e amigos é quando me deparo uma vez mais com a fria realidade.
Nos dias seguintes só queria continuar trancada no meu mundo, sem falar com ninguem nem ver ninguem.
Poucos dias depois voltei ao trabalho e apesar de ter sido recebida com abraços, um vaso de flores, um bolo e uma pedra Ametista Rosa da sorte...... eu continuava a sentir-me frágil e era como se estivesse nua! Não conseguia esconder os meus sentimentos e preferia mil vezes que ninguem falasse comigo, senão ficaria horas a chorar e sem sequer dizer uma palavra.
A minha colega Susana parecia ter tudo programado para me ajudar nesse dia, andamos as voltas de carro a trabalhar mas a espairecer ao mesmo tempo, á hora de almoço levou-me a almoçar, ofereceu-me o almoço e mimou-me com sobremesa e tudo. De tarde continuamos as voltas de carro e a fechar casas ... enfim, ela fez com que o dia mais dificil de todos tivesse passado rapido.
Os dias de trabalho seguintes continuavam a ser dificeis de enfrentar. Passado um mês, dei-me conta que o que mais fiz foi esconder-me dos meus colegas de trabalho. Eles notavam que eu não estava bem psicologicamente e fisicamente, estava verdadeiramente doente devido ao stress. Tinha dores de garganta enormes, tosse que quase me dava vomitos, andei nas urgencias, com medicações ... tudo estava a ser mais dificil do que eu estava a espera. Os meus colegas ao verem o poço em que me estava a enterrar, juntaram-se e organizaram uma “caixinha de mimos” em que cada um pôs um valor monetario para que eu fosse comprar algo que me fizesse sorrir! Tive pena de não lhes conseguir agradecer como queria, mas da minha boca nem uma palavra saiu, só chorava e dizia que estava dificil de sair daquele buraco, nao consegui dizer mais nada. Sei que quem tomou a iniciativa foi o actual Director Geral, mas nem a ele consegui agradecer.
3 Semanas depois da minha Mãe falecer, e de tentar regressar a normalidade, recebo um telefonema as 23h de que o companheiro dela foi encontrado morto em casa e que o contacto mais próximo era eu! Não podia ser verdade !!!! Não pode !!!
Apesar de não ter qualquer sentimento ou ligação com ele, era mais uma morte! Na mesma casa !! Mais perguntas !!
Enchi-me de coragem e a unica coisa que pedi, foi que não ligassem a avisar nenhum dos meus irmãos. Nós estavamos de luto, PORRA!
Não dormi nem um minuto nessa noite, e na manhã seguinte logo de manhã ligou-me a GNR a dar a noticia que eu ja sabia. Apenas informei que lamentavelmente não havia nenhum familiar da parte dele e que nem eu nem os meus irmãos tinha algum relacionamento com ele, uma vez que ele era o agressor da minha Mãe durante os ultimos anos. Não poderiamos de maneira nenhuma responabilizar-nos por mais nenhum funeral uma vez que a minha Mãe tinha partido há 3 semanas a trás. Tudo isto era avassalador.
Neste mês as unicas mensagens eram de pagamentos, pagamentos e pagamentos, em nenhum momento me senti protegida pela situação que estava a passar, inclusive a dias fui ao cemitério ver se a campa dos meus Avós e agora, da minha Mãe também, fui ver se a campa ja estava tapada, porque sabia que deveria levar alguns dias a secar para a terra não abater, agora nunca imaginei que mais um balde de água fria estava para chegar!!!
Achei estranho a tampa da sepultura não estar lá perto, e os livros de marmore com as fotografias dos meus Avós estavam noutro canto , no chão, jogadas então fui procurar o coveiro do cemiterio e perguntei quando é que voltariam a tapar a sepultura e ele FRIAMENTE disse-me: -“Quando voçês pagarem nós tapamos”! Eu fiquei em choque com aquela resposta, os livros de marmore com as fotografias dos meus avós estavam ali no chão porque nós não pagamos????? O buraco onde estava a minha mãe estava ali a céu aberto porque não pagamos ????? Somos nós, os filhos os responsaveis por isto sem sabermos que tinhamos de pagar. Ficamos com o sentimento de culpa, mas na realidade nunca ninguém nos mencionou nada.
Esse dia, uma vez mais foi dos mais dificeis, ainda falei com a minha irmã mais nova que estava em prantos no proprio trabalho, o meu irmão mais novo só dizia que já não conseguia pagar mais nada naquele mes. Um aperto no coração é pouco para descrever como me senti nesse dia!
As burocracias no nosso País são bem mais indelicadas que qualquer um possa imaginar ou reclamar no seu dia a dia, não há uma proteção aos sentimentos de quem já está completamente derrotado.
Continuava a pegar no telemovel para ligar para a minha Mãe sempre que estava triste. É das coisas mais duras, seres obrigado a deixares de fazer algo que sempre deste como garantido !!! Um simples telefonema, uma simples conversa para contares como está a correr o dia, como os meninos estão grandes. É muito duro !
Depois deste mês, com a morte da pessoa mais proxima da minha Vida, de ter passado uma Páscoa afastada de todos , o aniversario da minha irmã mais velha sem ser comemorado, o dia da Mãe sem a minha propria Mãe, eu só podia pedir ajuda psicológica para sair disto o mais rápido possivel. Tenho 2 filhos, tenho o meu trabalho, tenho a minha saude e não estava a conseguir lidar com nada disto.
O dia da terapia do luto foi como cortar as correntes que tanto me pesavam, me amarravam e magoavam. Já não tinha mais oxigenio.
Eu libertei-me!
Deixei para trás o luto, as mágoas de tantas dividas e contas para pagar, a injustiça de tudo isto nos estar a acontecer e guardei apenas a minha Mãe no coração, já consigo falar com ela e contar-lhe que o Guga já não usa fraldas, que a Matilde já tem um dentinho da frente a nascer, que está tudo resolvido.
Sei que ela está bem no céu, não tem dores e que dentro de poucos dias vai começar a ver o que se passa cá por baixo e vai ficar muito orgulhosa.
Ainda não o fiz, mas sei que já tenho força para falar com a minha sogra, depois de um mês sem conseguir ter uma conversa franca com ela, apenas lhe dizia que estava tudo bem, quando na realidade magoava-me falar com ela porque me lembra muitissimo a minha própria Mãe, custava-me falar dela aos meus filhos porque quando dizia Avó Lucia , era porque havia sempre outra, a Avó Fati. E agora já não havia. Os meus filhos assim como eu , perderam uma Avó, perderam a Avó deles tão novos. Já não têm mais, e deixa-me muito triste saber que o vazio que eu tenho no coração, também eles o têm.
Hoje sei que consigo viver com a vida que tenho, que a minha saúde haverá de melhorar e apenas as boas memórias ficarão.
Heide rezar sempre pela minha Mãe, como lhe prometi lá no hospital!
Com Amor
NOKINHA
Maio 2022


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